Os jovens chineses solitários e desiludidos que buscam carinho e conexão com 'pais virtuais'

  • 26/04/2026
(Foto: Reprodução)
Os jovens chineses solitários e desiludidos que buscam carinho e conexão com 'pais virtuais' BBC/Andro Saini Como muitos outros jovens, Vincent Zhang fica sempre "grudado" no telefone celular na hora do almoço. Mas o seu conteúdo favorito é de um casal de meia-idade que ele chama de seus "pais virtuais". Os influenciadores preferidos de Vincent no Douyin (a versão chinesa do TikTok) são Pan Huqian e Zhang Xiuping. Seus vídeos mostram abertamente sua adorável vida familiar. E o casal frequentemente trata os espectadores como se fossem seus próprios filhos. Em menos de três anos, sua conta atraiu mais de 1,8 milhão de seguidores. Em um dos vídeos mais populares, Pan e Zhang dizem: "Quem é o adulto da família? Você anda cansado de trabalhar e estudar? Não se force demais. Mamãe e papai sabem que você suporta muito por aí." Vídeos em alta no g1 "Meus pais nunca me dizem para não me forçar demais, nem que eu já sou bom o suficiente", lamenta Vincent. "Mas os pais virtuais só me perguntam se estou feliz hoje." Os "pais virtuais" entraram na moda na internet chinesa em 2024. Desde então, mais de uma dezena de influenciadores, como Pan e Zhang, ganharam inúmeros seguidores. Estas discussões trazem à tona a insatisfação cada vez maior de muitos jovens chineses millennials (os nascidos entre 1980 e 1995) e da geração Z (entre 1996 e 2012) com a dinâmica familiar tradicional, que leva as obrigações e a obediência a virem antes do afeto. Na rede social chinesa RedNote, a hashtag "pais chineses" foi visualizada mais de 500 milhões de vezes, com mais de 1,2 milhão de comentários. Muitos também estão frustrados porque seus pais não compreendem as dificuldades de enfrentar uma economia lenta e as pressões de atender às expectativas dos pais como filhos únicos — o resultado da política chinesa de controle da natalidade, adotada entre 1979 e 2015. Muitos jovens chineses cresceram sozinhos, devido à política do filho único adotada pelo país (1979-2015) Getty Images/BBC Vincent teve sucesso e, hoje, mora em Xangai, onde trabalha como desenvolvedor web. Sua jornada de trabalho é extenuante. Ele pratica a escala 996 adotada no setor de tecnologia, que leva os profissionais a trabalhar das 9 horas da manhã às 21 horas, seis dias por semana. Mas ele acha as ligações telefônicas semanais com seus pais ainda mais estressantes. Eles costumam criticar sua escolha de carreira, segundo ele, e acreditam que um emprego no governo seria mais estável. Ou perguntam quando ele irá trazer uma namorada para casa. Vincent se sente menos sozinho quando participa com os demais da seção de comentários do canal de Pan e Zhang. Muitas pessoas como ele escrevem para o casal e os chamam de "mãe" e "pai". Suas mensagens costumam falar do seu dia a dia e, às vezes, eles pedem parabéns pelos seus aniversários. Mas algumas mensagens são extremamente alarmantes. Em um desses casos, uma menina chamada Dian Dian disse a Pan que não queria viver mais, que sofre de depressão e, por isso, tinha pensamentos suicidas. "Fiquei falando com ela por duas horas, mas ela não respondeu depois de 40 minutos", contou Pan, em uma entrevista no Douyin em 2024. Ele disse que não sabia o que havia acontecido com ela. Uma semana depois, ele recebeu uma ligação de Dian Dian. A jovem disse que, agora, se sentia muito melhor. "Percebi que havia feito algo muito significativo e me senti orgulhoso por muito tempo", conta Pan. A conta de Pan e Zhang no Douyin já atraiu mais de 1,8 milhão de seguidores Gentileza Pan compreende a dor que pode causar uma família negligente, pois ele próprio não teve uma infância feliz. Ele cresceu em uma yáodòng, uma espécie de casa subterrânea tradicional, na província de Shaanxi, no norte do país. Aos 14 anos, ele saiu de casa para ser o provedor da família, quando sua mãe sofreu paralisia. "Fiquei fora de casa por 33 anos e meus pais nunca disseram uma palavra de incentivo", disse ele, na mesma entrevista ao Douyin. Quando nasceu sua filha Jiangyu, Pan estava determinado a criar uma atmosfera familiar diferente. E, ao contrário das famílias chinesas típicas, Pan e Zhang sempre dizem a Jiangyu que a amam. Jiangyu incentivou seus pais a produzir vídeos curtos e eles se tornaram criadores de conteúdo em tempo integral, após o fechamento da empresa de Pan, em 2024. Ele não tem grandes planos para sua conta, mesmo com o potencial de ter altos lucros vendendo produtos com streaming ao vivo. "Espero poder fazer um pouco para que eles sintam o carinho do amor paternal", afirma ele. 'Literatura de sopa de abobrinha' Além do conteúdo relativo aos pais virtuais, também viralizou, no segundo semestre do ano passado, o conteúdo humorístico chamado de "literatura de sopa de abobrinha". Esta tendência foi inspirada por uma cena de um minuto, que mostra um filho recusando educadamente uma tigela de sopa de abobrinha da sua mãe, mas acaba sendo repreendido por mau temperamento. Muitos usuários jovens afirmam que esse vídeo captura a falta de comunicação típica das famílias chinesas, especialmente quando os pais ignoram os desejos dos filhos, dizendo que algo é para o seu próprio bem. Zhao Xuan, de 28 anos, faz parte deste grupo. Ela já silenciou o chat do grupo da família porque seus pais raramente demonstram que se importam. E, sempre que falam com ela, é simplesmente o retratado na "literatura de sopa de abobrinha", segundo ela. Zhao também acredita que seus pais preferem seu irmão de 15 anos. A cultura tradicional chinesa considera que apenas os meninos podem carregar a linhagem da família. Zhao conta que sua mãe é muito controladora sobre todos os aspectos da sua vida. Getty Images Zhao conta que sua mãe é muito controladora sobre todos os aspectos da sua vida. Depois que se formou, ela encontrou um emprego em tempo integral na França, mas sua mãe disse para ela desistir e voltar para a China. "Antes de voltar, minha mãe insistia que iria tomar conta de mim. Fiquei sensibilizada", ela conta. "Mas, na verdade, ela só queria que eu voltasse para casa para cuidar do meu irmão... Ela me trata da mesma forma que fazia quando eu era menor. Mas ela é uma mãe modelo para o meu irmão." No passado, Zhao chegava às lágrimas ao conversar com suas amigas, tentando entender o comportamento dos seus pais. Mas, agora, ela recorre a memes e vídeos humorísticos. As reações similares de outras pessoas fizeram com que ela percebesse que sua experiência não é a única e que ela poderia lidar com suas questões familiares com humor. Trauma político Muitos pais chineses de hoje em dia viveram os tumultuados tempos da Revolução Cultural (1966-1976) Getty Images A estudiosa de questões de gênero Guo Ting, da Universidade de Toronto, no Canadá, afirma que se identifica com os pais chineses. Ela observa muitas "razões históricas" por trás das altas expectativas com seus filhos e suas dificuldades de expressar afeição. Na época em que os pais de hoje em dia eram mais jovens, o discurso público negligenciava as emoções pessoais, segundo ela. Eles passaram pela Revolução Cultural Chinesa, uma década de violência e instabilidade entre 1966 e 1976. Naquela época, só se demonstrava amor pelo país ou pelo seu líder da época, Mao Tsé-Tung (1893-1976). Para Guo, a insegurança e a ansiedade dos pais de hoje podem ser explicadas pelas "turbulências e pela pobreza que eles atravessaram, bem como pelo ambiente inóspito, de sobrevivência do mais adaptado, que eles precisaram enfrentar". Parte da imprensa estatal tentou conduzir a discussão na internet em termos do conceito tradicional de piedade filial, aconselhando às gerações mais novas que fossem mais compreensivas com seus pais. Mas esta estratégia parece não funcionar com Vincent, por exemplo: "Posso entender as dificuldades dos meus pais, mas também tenho meus próprios traumas", afirma ele. Alguns pais virtuais contrataram empresas de gestão para monetizar seu conteúdo, mas Vincent conta que ainda deseja assistir aos seus vídeos. "Eles me dão o único carinho da minha vida. E é melhor do que nada." Com edição de Grace Tsoi e Alexandra Fouché. A ilustração no alto da página é de Andro Saini, do Departamento de Jornalismo Visual da BBC Leste Asiático.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/saude-mental/noticia/2026/04/26/os-jovens-chineses-solitarios-e-desiludidos-que-buscam-carinho-e-conexao-com-pais-virtuais.ghtml


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